terça-feira, 21 de setembro de 2010

Settembre




Quero dedicar um pouco do meu tempo a lembrar dos Setembros. Sim, Setembros, no plural, os Setembros de quando eu era apenas um garoto de cabelo engraçado, óculos de fundo de garrafa e uma vontade louca de viver. Setembro que era, na época Settembre, no melhor estilo italiano, com consoantes duplas e aquela sonoridade que poucas línguas nesse mundo conseguem imitar.

Bem, Settembre sempre foi um mês muito característico na minha infância, muito particular. Settembre era mês em que iniciaria o Outono, começariam as aulas e mãos habilidosas começariam a colher mais uma safra de uva. No meu mundo, no meu pequeno enorme mundo.
Os dias ainda eram longos, embora já se encurtassem devido à aproximação das estações frias do ano. Eu e Elisa corríamos, desesperados, aproveitando os últimos raios de sol. Corríamos, animados, antes do começo das aulas que tornariam nossos encontros mais difíceis. Amizades. Sorrisos cúmplices. Olhares confidentes. Palavras, momentos, felicidade. Inocência. Uma inocência esculpida pela maneira simples e original de viver. Uma felicidade que bastava. Passeios intermináveis acompanhados de longas conversas a respeito dos mais variados assuntos como a música do momento ou o sabor do ultimo sorvete que tínhamos provado. Eu, Elisa, e nossos vira-latas. Rex, Sissi, no bosque úmido, entre atalhos que para nós eram secretos. Entre curiosidades e mistérios. Entre o nosso mundo e a realidade.

Em Settembre as folhas das árvores já começavam a trocar de cor. Já não era o verde que o sol estava acostumado a refletir nos escaldantes meses de Julho e Agosto. Agora era amarelo, laranja, vermelho...e, como que por despeito, parecia que o sol não queria brilhar tanto, parecia infeliz. E as folhas caiam, se despediam, cansadas. Retornavam à terra, de onde recomeçariam o ciclo e se tornariam um dia folhas novamente, a serem iluminadas pelo Sol.

O cheiro da uva sendo colhida. Característica forte de Settembre. Pessoas encantadas, envolvidas, preparadas para outra longa e compensatória safra. É nítida na minha mente a imagem. Cestos sendo carregados pelas colinas, para cima, para baixo, ora vazios, ora cheios. Settembre.

E ainda, em Settembre, recomeçavam as aulas da Sra Bachini. 80 e alguns anos que, na época, pareciam para mim, muito mais do que hoje, uma eternidade. E ela tinha toda a paciência do mundo em me ensinar algumas notas em seu piano velho, cansado, como ela. Viviam ela e seu piano, naquela casa grande, repleta do luxo em que vivera outrora. Uma senhora nobre, casada com seu ilustre Piano. E ela tocava de olhos fechados, como se isso fosse prolongar seus anos de vida...se embebedava nas notas de uma partitura incompreensível. E eu a admirava tanto. E era Settembre.

Por fim, começavam as aulas. Os colegas, as novas risadas, o que iríamos aprender em mais um ano. Os professores. O italiano, a matemática, a Geografia que pra mim parecia tão complicada. As aulas da professora de Inglês que mandou eu cuspir um chiclete por estar parecendo, segundo ela, uma vaca ruminante. Não importa. Era Settembre.

E de Settembre em Settembre, cheguei hoje aqui, em mais um Settembre. Sei que sou hoje a soma de vários que já aconteceram e espero ser parte da soma de muitos outros que estão por vir. Que Settembre seja sempre assim. Um mar de recordações e uma inspiração para continuar.


Gianluca di Valdo (mais do que mais do que nunca), 21/09/2010

Um comentário:

  1. Setembro é um mês importante para os hemisférios, sempre trás lembranças, é tempo de transformação. São flores desabrochando, folhas secas se renovando... Suas lembranças são emocionantes. Mais um presente pra gente ler. Obrigado!

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