quinta-feira, 26 de junho de 2014

Meu

Não preciso de muito. 
Preciso do mundo.

O meu.
Aquele que, quando me fecho dentro dele,
Me mostra a cor do céu que eu preferir.
Aquele que tem as coisas no lugar,
Onde as estações começam e acabam quando eu quero.
As paredes são sempre brancas,
E quem tem o direito de rabiscar algumas delas sou, 
E sempre serei,
Apenas eu.

Até quando resolver emprestar um pincel.
E linhas coloridas e vivas alegrarão, e ferirão, a beleza do branco imaculado.
Assim como aconteceu um dia, 
Assim como acontecerá de novo.
Só não sei ainda sobre a intensidade de vermelhos e azuis. 

Isso lá, 

No meu mundo,
Onde noites são mais longas,
Para que me demore mais nos meus próprios braços,
Onde ruas são sempre de ladrilhos,
Com folhas verdes de gramas intrusas
E neles caminho descalço.

Lá onde falo para mim mesmo.
E as palavras são significados.
As verdades são verdades.
E as mentiras são tratadas como mentiras.
E sujas e podres.

Tudo isso

No meu mundo.
No meu próprio mundo, 
No meu mundo amado,
Na minha própria ilha secreta e quase imaginária,
Onde penduro quadros em paredes de ar,
Onde suspendo poesias em suportes de amor.

Aqui,

Dentro dos meus sorrisos que são apenas políticos quando quero,
E sinceros, sinceros e sinceros.
Onde o prazer é puro como o pecado.
E o pecado não é pecado.
E a maldade é para quem nela pensa.

Hoje, aqui.
Imprimindo mãos em fotocópias de saudade, 
Ensaiando minha canção que fala sobre o aqui.
Sobre o meu mundo.

O meu pequeno, grande, todo.

Meu,
E só meu.

E onde poucos se atrevem e conseguem de fato entrar.
Eu me contento com pouco.
Eu me contento com o mundo.

Gianluca di Valdo, 27 de Junho de 2014

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Não deixa não.



Não me deixa voltar sozinho pra casa.
Não me deixa ver o sol nascer sozinho,
Não me deixa ir embora.

Não me deixa ser fulminado pelos olhos dos que não participaram da mesma festa que nós. 
Não me deixa tropeçar nos meus passos bêbados da alegria que me roubaram.
Não me deixa dormir. 
Não me deixa apagar. 
Não me deixa sofrer.
Não me deixa ouvir uma música antiga. 
A das más lembranças.

A que me levou até você e que vai tocar de novo, quando você for embora.

Não me deixa arrancando ervas daninhas do meu próprio deserto.
Não me deixa escrevendo linhas e linhas e linhas a fio.
Como se o mundo terminasse no encontro do começo e o fim do meu conto. 
Não me deixa envenenar pelas minhas próprias palavras.
Não me deixa soluçar com meus gemidos de ausência.


Não me deixa terminar de escrever.
Não me deixa esperar até amanhã.
Não me deixa morrer nessa minha maldita maneira de ser.

Não me deixa enlouquecer.

Não me deixa voltar sozinho pra casa.
Não deixa a festa terminar.

Gianluca di Valdo, 24 de Junho de 2014


segunda-feira, 2 de junho de 2014

Inacabado

Eu sempre tive perguntas e incertezas. E geralmente não me achei bom o suficiente. Acreditei menos em mim do que deveria. Sempre achei que não seria o cara mais simpático de uma festa, tampouco o mais bonito. Não acreditei que se interessariam por mim. Não achei meus desenhos tão bons quanto diziam, tampouco que as minhas palavras jogadas nas páginas de um Blog seriam motivo de interesse ou curiosidade. Eu tive constantemente medo. Medo principalmente dos outros. E queria entender de onde vem, como isso surgiu. Dizem que a psicologia desvenda esse tipo de coisa, certo?
 
Enfim...

Um dia, bom, um dia eu resolvi que encararia algumas questões e que o medo seria um fantasma pra esconder em algum armário velho, quem sabe dentro de uma mala usada. E assim foi. E assimfui adiante.

Acontece que coisas que a gente guarda nunca deixam de existir.







Sentado e cansado.
Meu jeans desbotado.
Minhas palavras secas na garganta.
Meus gritos sufocados pelas palavras que deixei de dizer.
O medo aprisionado,
Encobrindo os meus olhos com vendas escuras,
Fechando meus lábios com mordaça de metal.

Lágrimas em pó,
E o suor que escorre líquido, sujo.
Sabor de sal.
Sal nos lábios secos.
Salobra.
Água,
Preciso de água.
Preciso de fala.
Preciso da mala.

Entreabro os lábios,
Sabores do deserto.
Um asfalto homicida.
A tristeza triste e abafada
Do choro seco,
Da saudade do que se foi.

Deito.
Sabor de ferro nos lábios.
Quase enxofre, quase asfalto.
O vapor de sol,
A luz que mata.
O medo que sufoca.
A vida que escapa.
A essência, a vida da alma.
A necessidade, a saudade.
A verdade.

Não enxergo.
A vida é além dos meus olhos esquecidos,
Do meu azul apagado.
Meus oceanos poluídos.
Meu jeans rasgado.
Meu mundo proibido.
Eu, desbotado.
Acabado, apagado.
Suado.
Cansado.

A mala abriu lá atrás da última duna que consegui subir.
Depois só vi o asfalto.
O medo me encontrou.
Me amordaçou,
Vendou meus olhos.
Me apagou.
E Me deixou aqui esquecido.

Perdido e inacabado.

Gianluca di Valdo