domingo, 13 de outubro de 2013

E havia ele

Ele que estava ali.
Parado.
Um outono precoce,
Um gramado verde,
Um tempo passando.
Nuvens brincando de nuvens,
E o sol esquecendo de ser sol.

E ele que pensava na vida.
Pensava sobre aquele menino que cresceu
Sobre seu cabelos que escureceu.
E sobre os seus olhos que foram sempre os mesmos.
Pensava sobre a eterna dúvida de se parecia mais com a mãe ou mais com o pai.
Ou com nenhum dos dois.
Ou demais com os dois.

Pensava sobre o que já havia sonhado,
Pensado, realizado.
Pensava numa rosa amarela que gostava
Sobre as mãos que apertou,
As mãos que deixou.
As mãos que ficaram.
Lembrava de corações que bateram forte
De emoções que quis
E de emoções que criou.
E emoções que negou.
Ele olhava para o chão,
Encostava na terra,
Sujava seus dedos sujos.
Julgava escolhas,
Se arrependia.
Doía. Partia. Voltava.

E ele levantava o olhar,
Pensava no amanhã.
Chorava por dentro
Sorria por fora.
E tantas vezes fazia o oposto.
Ele que estava ali,
Naquele outono precoce,
Mas que não estava.
Ele que atravessava estações,
Situações, Dimensões.
Ele que criava realidades,
Desafiava
Brincava na neve, no mar, no gramado verde e brincava de coragem.

Ele que atravessava o vento,
Sentia o cheiro de chuva, de cobre e de incenso
Ele que se apegava a um momento
Escutava o mesmo som,
Agitava, se tornava lento.
Ele que estava ali
E não estava.

Ele que criava seu próprio mundo,
Não se limitava,
Se reinventava.
Ele que não era um só.
E que não era de ninguém.
Ele que havia amado,
Se apegado.
Apaixonado

Ele que havia deixado ir embora
Ele que havia tentado segurar
Ele que não abrira mão.
Ele que sentia tanta saudade de lhe explodir o coração
Ele que cuidava da alma de quem amava,
Ele que daria mais que si próprio pelo que desejava.
Ele que tentava ir adiante,
Entre milhões de perguntas,
Algumas certezas,
E momentos inconstantes.

Ele que acreditava no amor. Ele que não acreditava.
Era ele, ele que era ele
E que era mais.
Ele que sentia o frio da tarde daquele outono nem tão precoce
Ele que admirava apenas as folhas fracas caindo das árvores crescidas
Crescidas como ele.
A noite se aproximava devagar
O vento ficava mais frio
E soprava mais forte
As folhas caiam mais rápido
Os carros voltavam pra casa.
As pessoas iam embora.
E ele que ficava ali.
E ele que  ficava aqui.
Porque ele era eu,
E eu era ele.
E a gente era eu,
Então por um momento pensei
“Cabeça de nuvem”.

E havia ele.
E havia eu.

Ele e eu que nos sentávamos num gramado verde

E escrevíamos sobre a vida.

Gianluca di Valdo e Raone Tomazelli