sábado, 26 de novembro de 2011

Gota por Lágrima


Janela fechada,
Som de chuva,
Gota por gota,
Lavando a minha alma,
Paredes molhadas,
Sensações cravadas,
No íntimo do abismo do porquê.
Na esperança, no júbilo, 
No querer saber o amanhecer.
Mentes livres para tentar,
Corações amarrados
À tentativa frustrante de amar.
O libidinoso caminho da juventude,
O escandaloso perfume do desejo,
A pureza impura de sonhos incompletos,
A história escrita por baixo das estrelas,
Corpos na chuva,
Gota por gota.
Toque por toque.
Desejo por desejo.
Sexo por sexo.
Escavando tentativas,
Arriscando emoções.
Tentando separar,
A lágrima da chuva.
O amor do desejo.
O hoje e o amanhã.
E o passado.
Janela fechada.
Chuva lá fora.
E minha cabeça é um devaneio, 
Totalmente sem rumo.
Sobre o que fazer,
O que pensar,
O que viver.
Gota por gota;
Lágrima por lágrima.

Gianluca di Valdo, 27 de Novembro de 2011

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Caroço de abacate

Passo pelo mesmo caminho, percorrido quem sabe, ao menos mil vezes. Sinto o mesmo cheiro. A terra seca se espalhando em forma de poeira, sobre meus pés descalços. As folhas verdes do mesmo tom, caindo com a mesma velocidade. A erva daninha que já foi arrancada e que nasceu de novo, cresceu de novo. Um caroço de abacate embaixo do velho e forte abacateiro. Um pé de mexerica. Vejo o que já foi um pasto, onde a Morena, a Paçoca e a Lindinha passavam dias e dias vasculhando novas folhas verdes. Lembro do cheiro do leite, do cheiro de esterco. Lembro dos cães, quantos já tivemos e por quantas fatalidades já os perdemos. Lembro do cheiro de cachorro molhado que todos eles tinham em comum, assim como era comum meu amor por eles. Passo por uma ponte estreita, de apenas una tábua, que conhecemos por pinguela. Lembro dos pés de alguns amigos que amigos não são mais, apenas, quiçá, conhecidos de infância. Lembro do cheiro de mexerica, das cascas ácidas jogadas na água do córrego que pensávamos fosse rio. Penso em sorrisos, em novenas de Natal. Em quanto era simples. Em quanto pensei que continuaria assim. Lembro do cheiro de avós, avôs. Lembro de uma velha geração. Lembro de brigas entre pais, de risadas até se fazer em cima. Lembro do marrom desbotado, tipicamente brasileiro, do quintal da minha casa. Lembro de quantas vezes contei até 100. Quantos esconderijos inventei, quantos desmascarei. Lembro de segredos, que ainda não se revelam. Lembro de aventuras na mata, de bromélias roubadas. 
Lembro de promessas de futuro, de sonhos de presente, reviver de passados. Lembro de distanciamentos sem necessidade , de fogo de palha. Lembro de beijos escondidos. Lembro da inocência, de vidros quebrados, de árvores escaladas e cabelos pintados...

Estou aqui e lembro de uma fase da minha infância. Estou aqui e lembro de tudo isso...e é mágico, e é único.

Colecionarei caroços de abacate.




Gianluca di Valdo, 14 de Nivembro de 2011