quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Esperança

Não ha sentido
Na cor não verde da esperança,
Se a foi a felicidade que tingi de anil,
O amor que mergulhei no magenta,
E se com o amarelo pincelei minhas paredes.

Não faz sentido.
Nas cores não espalhadas pela vida,
Nos rostos não coloridos pelos sulcos coloridos do relógio,
Nos sorrisos não amarelos de gostos de café,
Nas expressões cinzas demais diante de céus tão azulados.

Não tem sentido
Em fotos não reveladas e espalhadas em móveis de madeira,
Em mesas de centro sem panos de centro,
Em lágrimas translúcidas opacas de tristeza.

Nenhum sentido, Nenhum valor.
Nenhum sorriso, Nenhum rancor.

Ha, Faz ou Tem.

Não sentido no repetir-se de dias monotamente pastéis,
Quando pode ser brilhantemente verde
A cor verde da esperança.
Incrivelmente anil cada dia da minha alegria.
Ofuscantemente magenta o sabor do meu amor.
E estonteantemente amarelas as paredes da minha vida.

Gianluca di Valdo, 01 de Outubro de 2014



quinta-feira, 26 de junho de 2014

Meu

Não preciso de muito. 
Preciso do mundo.

O meu.
Aquele que, quando me fecho dentro dele,
Me mostra a cor do céu que eu preferir.
Aquele que tem as coisas no lugar,
Onde as estações começam e acabam quando eu quero.
As paredes são sempre brancas,
E quem tem o direito de rabiscar algumas delas sou, 
E sempre serei,
Apenas eu.

Até quando resolver emprestar um pincel.
E linhas coloridas e vivas alegrarão, e ferirão, a beleza do branco imaculado.
Assim como aconteceu um dia, 
Assim como acontecerá de novo.
Só não sei ainda sobre a intensidade de vermelhos e azuis. 

Isso lá, 

No meu mundo,
Onde noites são mais longas,
Para que me demore mais nos meus próprios braços,
Onde ruas são sempre de ladrilhos,
Com folhas verdes de gramas intrusas
E neles caminho descalço.

Lá onde falo para mim mesmo.
E as palavras são significados.
As verdades são verdades.
E as mentiras são tratadas como mentiras.
E sujas e podres.

Tudo isso

No meu mundo.
No meu próprio mundo, 
No meu mundo amado,
Na minha própria ilha secreta e quase imaginária,
Onde penduro quadros em paredes de ar,
Onde suspendo poesias em suportes de amor.

Aqui,

Dentro dos meus sorrisos que são apenas políticos quando quero,
E sinceros, sinceros e sinceros.
Onde o prazer é puro como o pecado.
E o pecado não é pecado.
E a maldade é para quem nela pensa.

Hoje, aqui.
Imprimindo mãos em fotocópias de saudade, 
Ensaiando minha canção que fala sobre o aqui.
Sobre o meu mundo.

O meu pequeno, grande, todo.

Meu,
E só meu.

E onde poucos se atrevem e conseguem de fato entrar.
Eu me contento com pouco.
Eu me contento com o mundo.

Gianluca di Valdo, 27 de Junho de 2014

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Não deixa não.



Não me deixa voltar sozinho pra casa.
Não me deixa ver o sol nascer sozinho,
Não me deixa ir embora.

Não me deixa ser fulminado pelos olhos dos que não participaram da mesma festa que nós. 
Não me deixa tropeçar nos meus passos bêbados da alegria que me roubaram.
Não me deixa dormir. 
Não me deixa apagar. 
Não me deixa sofrer.
Não me deixa ouvir uma música antiga. 
A das más lembranças.

A que me levou até você e que vai tocar de novo, quando você for embora.

Não me deixa arrancando ervas daninhas do meu próprio deserto.
Não me deixa escrevendo linhas e linhas e linhas a fio.
Como se o mundo terminasse no encontro do começo e o fim do meu conto. 
Não me deixa envenenar pelas minhas próprias palavras.
Não me deixa soluçar com meus gemidos de ausência.


Não me deixa terminar de escrever.
Não me deixa esperar até amanhã.
Não me deixa morrer nessa minha maldita maneira de ser.

Não me deixa enlouquecer.

Não me deixa voltar sozinho pra casa.
Não deixa a festa terminar.

Gianluca di Valdo, 24 de Junho de 2014


segunda-feira, 2 de junho de 2014

Inacabado

Eu sempre tive perguntas e incertezas. E geralmente não me achei bom o suficiente. Acreditei menos em mim do que deveria. Sempre achei que não seria o cara mais simpático de uma festa, tampouco o mais bonito. Não acreditei que se interessariam por mim. Não achei meus desenhos tão bons quanto diziam, tampouco que as minhas palavras jogadas nas páginas de um Blog seriam motivo de interesse ou curiosidade. Eu tive constantemente medo. Medo principalmente dos outros. E queria entender de onde vem, como isso surgiu. Dizem que a psicologia desvenda esse tipo de coisa, certo?
 
Enfim...

Um dia, bom, um dia eu resolvi que encararia algumas questões e que o medo seria um fantasma pra esconder em algum armário velho, quem sabe dentro de uma mala usada. E assim foi. E assimfui adiante.

Acontece que coisas que a gente guarda nunca deixam de existir.







Sentado e cansado.
Meu jeans desbotado.
Minhas palavras secas na garganta.
Meus gritos sufocados pelas palavras que deixei de dizer.
O medo aprisionado,
Encobrindo os meus olhos com vendas escuras,
Fechando meus lábios com mordaça de metal.

Lágrimas em pó,
E o suor que escorre líquido, sujo.
Sabor de sal.
Sal nos lábios secos.
Salobra.
Água,
Preciso de água.
Preciso de fala.
Preciso da mala.

Entreabro os lábios,
Sabores do deserto.
Um asfalto homicida.
A tristeza triste e abafada
Do choro seco,
Da saudade do que se foi.

Deito.
Sabor de ferro nos lábios.
Quase enxofre, quase asfalto.
O vapor de sol,
A luz que mata.
O medo que sufoca.
A vida que escapa.
A essência, a vida da alma.
A necessidade, a saudade.
A verdade.

Não enxergo.
A vida é além dos meus olhos esquecidos,
Do meu azul apagado.
Meus oceanos poluídos.
Meu jeans rasgado.
Meu mundo proibido.
Eu, desbotado.
Acabado, apagado.
Suado.
Cansado.

A mala abriu lá atrás da última duna que consegui subir.
Depois só vi o asfalto.
O medo me encontrou.
Me amordaçou,
Vendou meus olhos.
Me apagou.
E Me deixou aqui esquecido.

Perdido e inacabado.

Gianluca di Valdo

sábado, 31 de maio de 2014

Quando. E quando.

Quando não precisei de palavras.Você tampouco.
Quando inventamos nosso jeito de contar as horas.
Quando senti o toque dos teus olhos,
Que devagar acariciava minha alma,
Como plumas penteadas pelo vento.
O mesmo vento tropical que me trouxe até você.

Quando nossos sorrisos se tornaram cumplices,
As palavras se tornaram complementos,
E não necessidades.
Quando eu adivinhei as falas do seu próximo discurso.
Quando meus lábios tocando a pele do seu rosto,
Se inspiraram no movimento do teu sorriso.

Quando nossas mãos criaram vida própria,
E se encontraram sempre que puderam,
Se sentiram, se abraçaram e andaram juntas.
Quando eu percebi que era tarde
E mesmo assim não te deixei dormir.
Pela ansiedade e vontade de você.

Quando meu pensamento se confundiu com o teu,
Quando perdi cabelos no seu lençol,
Nossos pés arriscaram passos juntos
E descobri sua pose preferida numa foto.

Quando perdidos nos nossos silêncios provocados
Encontramos nossa essência,
Nos entregamos a ela,
Nos libertamos de tudo
E ouvimos a voz do nosso sentimento
Que ousadamente resolvemos chamar de

Felicidade. (?)

Gianluca di Valdo, 01 de Junho de 2014.

terça-feira, 20 de maio de 2014

Escorrido

Fim de tarde.

E eu esperei a música certa,
Pra poder falar de mim.
Esperei que as notas certas servissem de fundo,
Pra que meus discursos pesassem menos,
Como se a melodia aliviasse o peso
E camuflasse as imperfeições
De quem sou de verdade.

Pensei que esperei.
Esperei que o tempo passasse.
Acumulei erros,
Que gentilmente chamei de aprendizagens. 
Escolhi coisas que também não quis.
Escolhi sobre as verdades que quis contar
Da verdade de ser quem sou, ou era, ou fui.
Ora perdido,
Ora trazido pela maré,
Ora caminhando sozinho.
Os passos que me fizeram companhia.
Ora dividindo momentos.
E mais algumas mãos que me trouxeram alegrias

Resolvi esperar pra falar de mim,
Dividindo o sol com a tarde que se ia
E a lua com a noite que começava
A vida era rápida
Lenta
Ou passava depressa?

Escolhi ser lento.
Fui depressa.
Escolhi não falar de mim.
Aumentei o som.

As imperfeições se tornaram mais sutis,
O tempo gentilmente fez mudar a estação
E não havia o mar à minha janela.
A luz continuava apagada.
A lua não era gentil como o tempo.
Apagada.

O último gole,
O último recurso.
A vida me escapava.
Cheiro de temporal.

Pingo de chuva,
Janela molhada.
Escolhas escorrendo diante dos meus olhos também molhados.
Escolhi esperar pra falar de mim.
Escolhi uma janela escorrendo minhas escolhas.

Virei as costas.

Já havia escolhido. 
E escorrido.

Desliguei a música. Não fazia sentido.

sábado, 19 de abril de 2014

Sobre o crescer

Costumava ser um cara com simples e importantes certezas. Convicto, orgulhoso em meus valores construídos passo a passo, anos após ano, ouvindo algumas histórias que me foram contadas nos momentos certos.

Me julgava honesto. Me julgava, acima de tudo, seguro.

Bom, isso até completar 18 anos.

Depois a vida desmoronou, as histórias da Disney começaram a não fazer sentido algum, duvidei sobre o quanto a Amazônia vai resistir ao desmatamento e a cura do câncer começa a parecer mais distante do que me fizeram acreditar. Obviamente eu poderia substituir a pessoa do texto para "você", já que é absolutamente da mesma forma que acontece com todo mundo.

Hoje, já um pouco distante dos meus 18 anos (e como eu agradeço ao tempo) tenho outro tipo de verdades. Outros conceitos, crenças e valores dos quais perco menos tempo tentando me orgulhar, preferindo questioná-los e desafiá-los de vez em quando, pois o próprio conceito de eternidade é completamente questionável.

Hoje eu acredito que ninguém vai bater na minha porta me oferecendo o trabalho dos meus sonhos, mas tenho menos medo de lutar por ele, ao mesmo tempo. Não acredito que vou encontrar o amor da minha vida atravessando a faixa de pedestres enquanto leio distraído um livro de Dostoiévski. Aliás, amor?

Na ciência eu acredito. Mas sei que existe muito trabalho a ser feito. Na religião eu não acredito mais. E mesmo assim nunca estive tão próximo do que denomino ... espiritualidade.
Algumas pessoas não acreditam mais em mim. Pensam que me perdi, me decepcionei demais e por isso passei a ser um descrente. Não se enganem, eu nunca tentei voltar. Eu não poderia.

O conhecimento é um caminho sem volta, bem me disseram uma vez. Com o tempo passei a chamá-lo de maturidade e com ela, diminuí certas ansiedades, aprendi a controlar alguns ciumes, a criar menos expectativas. E é bom que seja assim. A vida ganha um equilíbrio, uma possibilidade de respirar pois não posso sufocá-la nas minhas vontades intensas de vivê-la.

É bonito, é interessante. É bom crescer.

terça-feira, 11 de março de 2014

Acredita?

Na milionésima tentativa de encontrar a minha casa, 
No verdadeiro e silencioso percurso do que me traz suspiros de felicidade.
Na certeza estúpida de que tem alguém atrás da porta.
Gostaria de pousar as armas,
Erguer a cabeça, seguir em frente.
Gostaria de me apegar a alguns detalhes,
Encostar meus dedos naquela coberta que te cobre
Tatear suavemente as linhas escondidas do seu corpo.
Queria encostar o rosto. Sentir a pele.
Respirar o teu respiro. 
Falar no teu sussurro.
Embriagado pelas notas cítricas do seu discurso.
Queria te envolver na minha fala, 
Te convencer do quanto é sincera.
Queria te falar sobre futuros,
Sobre a minha casa que não encontrei.
E sobre quem está atrás da porta.
Queria dividir meus medos,
Te contar segredos.
Queria ouvir você me ouvir.
E eu te entregaria muito, quase tudo.
Te demonstraria que almas tem sabor,
Que amores tem cor,
Que sou mais simples do que especial
E que a vida é muito, muito banal.

Se eu pudesse me dividir entre eu e você.
Se você acreditasse.
E se eu sentisse.
Se seus dedos passassem devagar pelos meus cabelos que cresceram,
Seus olhos olhassem fundos os meus que já foram de oceanos mais profundos,
Se você quisesse sentir, perceber, ter. 

Precisaria de muito pouco pra não ter medo da porta que não se fecha.
Do alguém que está por trás dela.
Dos olhos desconhecidos que me olham,
Me dizem sobre certezas e erros.

Só precisaria de você.

Acredita?