quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Barulho de rua, 
De vento que é vento, 
Do vento que é movimento de um carro que passou. 
Luzes, um pouco de Natal. Só um pouco. 
Tá frio. Embora não deveria. 
Vento de uma estação de metrô, 
Fuligem. Sujeira. Pessoas.
Corre, desce, sobe. 
Mantenha-se à direita. 
Mas prefiro a esquerda livre, 
É seco o barulho da porta do trem se fechando.
Caos. celulares, mochilas e sacolas. 
Silêncio. 
Alguém falando mal de um chefe.
Alguém rindo de um colega.
Ninguém chora.
Vento de chuva que vem.
Barulho de um temporal já esperado. 
Sem bateria. 
Subo uma escada.
Subo mais uma.
Atravesso uma esteira. 
Deixo a esquerda livre.
Percorro uma maré de rostos que também não sabem pra onde vão.
Mas fingem que sim.
Olho no olho.
Desvio.
Caráter.
Vaidade.
Melancolia. 
Assepsia. 

Saio.
É seco o ar da cidade. 
Movimento. Caos. Celulares. Bolas e sacolas.
Uma faixa de pedestres. 
Um sinal muito lento para o carro.
Um sinal muito rápido para mim.
O contraste do cinza com o cinza.
A delicadeza do concreto sobre o asfalto.
E pessoas que escorrem, rápidas quase como o vento.
O mesmo vento que é vento.
O vento que é o de um carro que passou.
Algumas luzes de Natal.
O bom dia e o boa noite.

Da cidade. 


segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Há uns 2 ou 3 anos (na verdade talvez mais do que isso), venho repetindo um ritual peculiar, em momentos aleatórios do dia. Basta estar em um cômodo qualquer que tenha espelhos (geralmente são banheiros) e me sentir ligeiramente melancólico, mas às vezes nem isso. É um gesto calmo mesmo, sem muito desespero, o que também é estranho, porque me tira do padrão de comportamentos ansiosos com os quais eu convivo diariamente. Nesse caso específico não é nada disso. Mas é estranho.

Olho bem no fundo dos meus olhos, lá aonde às pessoas tem um pouco de medo de ir, e me pergunto:

- O que existe do Raone dos 9 ou 10 anos aí?

Antes de responder, eu te pergunto: você já se perguntou o mesmo? Você já tentou indagar sobre o que daquela criança que você era permaneceu? O que foi embora? Por que? POR QUÊ.

E então talvez valha aqui um "por quê" desse porquê. (e confesso que confundo o uso das formas de porquês, mas não vou fazer uma correção gramatical).

Talvez essa pergunta surja em mim por ter tido uma infância de muitas experiências marcantes. Boas experiências marcantes, em geral. 
Mudaria pouca coisa até os meus doze anos. Mentira, não mudaria nada não. Aos 4 anos me levaram pra conhecer um outro mundo e eu nunca mais consegui permanecer num lugar, o que é maravilhoso, mesmo meu pai não concordando. Aos 4 anos me encantei com as nuvens e um céu azul da janela de um avião (e sim, eu me lembro bem) e perguntei pra minha mãe onde estava deus. Ela riu, eu acho, e eu não entendi. Mal sabia eu.

"Meus olhos sempre foram de uma cor bonita"

É a primeira coisa que lembro. Pequenos, mas bonitos. Com alguns graus de astigmatismo junto a uma hipermetropia também não tão simples, mas bonitos. O Eu criança achava isso bonito. E ainda acha. Antes de usar óculos eu enxergava a vida bastante embaçada, mas não sei se isso está na minha memória, ou se imagino porque pessoas sem óculos enxergam assim. 

O meu Eu de 9 ou 10 anos era um menino sonhador. E, veja bem, ainda sou. Os olhos brilhavam pela curiosidade de descobrir o mundo. Era um menino curioso-estudioso de olhar levado. Talvez seja mais interessante ver o mundo mesmo quando se têm a inocência do olhar de uma criança Depois as coisas são bastante corrompidas e talvez nos tornemos indivíduos conformados demais, rabugentos demais. Eu me tornei rabugento. Conformado acho que ainda não. E meu olhar mudou um pouco, voltou a ser embaçado. A gente acha que as coisas são o que são, mas descobre - geralmente da pior forma - que não. Mas também não sou tão cético quanto a - quase - nada. Acredito em olhares embaçados que podem ficar mais límpidos. Com ajuda, sem ajuda. Geralmente, com ajuda. 

O meu Eu daqueles anos era encantado e apaixonado com a vida. Depois da escola bastava pouco pra me deixar feliz. A noite preferida era quando minha mãe fazia batata frita e esperávamos meu pai chegar para comer. Era tudo bastante simples, mas criança nem isso percebe e não precisaria colocar um "mas" aqui... mas...
Sempre fui coerente. Sempre fui contraditório.
Hoje eu continuo simplesmente encantado e apaixonado com a vida, principalmente ao ficar (só um pouco) mais velho e descobrir que tantas decepções na verdade são apenas etapas do caminho e sempre vão existir paralelamente à felicidade. Depende do quanto de energia você gasta em cada sentimento.

O meu Eu de então, se enxergava com a alma de uma artista. Não vivia sem criatividade. Desenhava, ouvia e descobria músicas, tocou um instrumento por algum tempo... e veja bem, acho que talvez isso seja o mais evidente, de tanto que permaneceu. Não fico sem arte, sem alguma coisa que me coloque pra fora, me tire do eixo, me recoloque nele. Me desperte, me inspire, me questione. Os olhos daquele menino já sabiam disso: por mais modesta que fosse, a minha expressão sempre seria a coisa mais importante.

Eu poderia continuar falando durante muito tempo sobre isso, pois não vou encerrar o exercício de me buscar no espelho quase todos os dias, mas preciso encerrar o texto. tem dias que comecei e não quero dormir de novo sem saber que ele foi pro lugar que devia.

E é isso.

Deixe que seus olhos te falem também sobre como é quando são vistos. 


quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Não sei mais se sei escrever, se sei passar por aqui e ultrapassar algumas 3 linhas salvas como rascunho. Às vezes é simplesmente difícil avançar, querer, mostrar. E tudo fica limitado a desabafos interrompidos, ou envergonhados, ou cansados, de mim, comigo mesmo. Vamos ver se hoje vai ser diferente. 

Não gostaria exatamente de dar pistas do momento que estou vivendo, pois, como sempre foi e sempre será, eu sei do que estou falando e é quase mágico quando, anos mais tarde, releio o que escrevi e me reconheço na época/espaço do qual escrevia. 

Roupa Suja

Naquele dia
Era um espaço grande e bagunçado. 
Pilhas e pilhas de livros escritos à mão, sobre presentes que já foram futuros. 
E futuros que seriam presentes e alguns ainda o serão. 
Uma sala branca, um sofá branco, um gato branco. 
Um lençol escuro, uma luz mal feita, uma falta de espaço num espaço grande. 
Nas paredes, pendurados, não havia nada. Apenas um quadro de mal gosto, 
Uma expressão de mal gosto. Um mal gosto. Um mal. Um gosto. 

Um amargo. Uma cama cheia. Uma pilha de roupas. Bem sujas.
Um sentimento esmagado, um coração esquisito, um ineditismo do ser. 
Um quadro apoiado, janelas abertas. Um olhar perdido.

Um cheiro de espaço, vazio, sem graça. Cheiro de rancor misturado com raiva. 
da raiva que é amor transformado. De ódio que é primo de um espaço vazio. 

Pilhas e Pilhas e Pilhas de roupas emPilhadas.A insistência nos mesmos espaços vazios cheios de sacolas de roupas, que chegam, que vão, que somam, que se empilham, Espaços sem quadros pendurados. 

Um rosto, alguns rostos, detalhes. Estilhaços dos espaços preenchidos por palavras de vidro. Milhões de cortes profundos disso tudo que se espalhou pelo chão e onde pisa-se descalços. O sangue bem vermelho escorrendo por causa de garrafas de vinho que eu não quebrei. As garrafas que preenchiam os espaços...vazios e empilhados de roupas. 

Me corto, me firo, firo também, me envolvo, me escapo, me esqueço, não me reconheço. 

Agrido, me firo, entristeço. 

Vou embora, retorno, vou embora de novo e retorno de novo. No espaço vazio preenchido do que não fui eu. 

Vou embora, não retorno, não preencho, não observo, não tento. Esqueço, recomeço. 

Me encontro sozinho, penduro alguns quadros, dobro roupas e não quebro garrafas. 
Preencho um espaço, compro uma planta, me olho no espelho.

Me reencontro, observo, retorno. 

Dono e arquiteto do meu próprio e único espaço, não deixo para ninguém,

a bagunça do meu quarto. 


domingo, 21 de janeiro de 2018

Avessos

É como se,
O que está por fora,
O que nos limita, nos contorna, nos envolve e nos cabe.
Como se o nosso corpo
Não tivesse a real missão de nos conter.
Ou o fizesse apenas em aparência.
Para parecermos decifráveis,
Finitos. Inteligíveis.
Fáceis e possíveis.
Para parecermos reais.
Tangíveis.
Banais?

Quando, na verdade

Virados do avesso, somos feitos de universos.
Infinitos, incompletos, explosivos, desconexos.
Brilhando em excesso.
Ofuscados em luz,
Incompreensíveis.
Claros demais.
Barulhentos e impossíveis.
Desordenados.
Alinhados e confusos.
Numa plena exposição de luz e som.

Uma miríade de estrelas em sequência e sobrepostas.
Tão próximas, milimetricamente próximas.
Impossíveis de serem separadas e entendidas.
Apenas admiradas, sentidas em seu calor.
Decidindo o que fazer com a energia que delas emanam.
Individualmente. Em conjunto. Sobrepostas.

É realmente difícil.
É maravilhosamente difícil e frustrante,
Ao mesmo tempo.
O caos de dentro, num infinito dentro de outro.
E de novo. E de novo. E de novo.

O corpo diz que não.
O corpo diz que cabe.

Enquanto, por dentro,
Brilhamos e pegamos fogo,
Nos maravilhamos e ficamos cegos,
Envolvidos na beleza de uma luz incandescente.
Que dá a vida e que a destrói.

E então dizem que somos feitos de luz.
Concordo.