domingo, 25 de outubro de 2015

Arrepios

Muito, muito tempo sem escrever depois, resolvi passar por aqui e deixar uma publicação nova. 
Alguém até me disse nesse meio tempo que o espaço do Blogger iria acabar (em Julho), não me mexi, permaneci, que bom que ele ainda existe. 

Sentimentos transportadas para a extremidade limite do físico.
Arrepios.
Emoções que transcendem, ecoam, contam sobre a gente.
Atravessam algumas distâncias não percorriveis,
Pois não são só quilômetros e dias unidades de medida da saudade.
A nossa saudade.
A que é sobre olhos pequenos que não se descrevem,
Recordações que superam tempos verbais.
Exceções. Vaidades. Raridades.
Toques mágicos, especiais.
Saudade daquele abraço.
Histórias escritas sobre paredes de papel paraná.
Duros, mutáveis. Nós, queridos professores de verdades.
Somos as histórias contadas aos nossos pais.
Sobre amores que se cabem,
As lágrimas secas de cactus no deserto.
A esperança fria e cruel de uma chuva no Sertão.
Somos estilhaços de um encontro,
Pedaços de espuma.
Excentricidades.
Distantes. Aproximados.
Eu choro, choro sem vergonha.
Minhas lágrimas tem o sabor da saudade dos seus olhos me olhando,
Suas não palavras, seus gestos indefesos.
Sua súplica de um não abandono.
Nosso abandono.
E eu sozinho,
Irremediavelmente só,
Evitando os lugares onde estivemos.
Sobre um “a gente” que é fumaça,
Sinalizando ao além sobre o preço da distância.
Sobre todos os muros que pulamos,
Nossas mãos que estiveram juntas.
Estrelas que contamos depois da meia noite,
Os sussurros sobre quantificar sentimentos.
Sobre o que se foi,
Sobre o que permaneceu.
Estou perdido entre meus labirintos criados,
Sua presença não tão imediata.
Os atalhos que você provocou.
As expectativas que teimosamente evitei.
Sobre folhas, ventos.
Outonos que chegam e se vão.
Sobre uma madrugada escrevendo linhas banais,
Sobre a incapacidade de te deixar pra trás.
É um não querer. É um dever.
Uma chance. Um telefone.
Um sinal azul e verde.
Uma rodoviária de saudade.
Queria te falar sobre a proximidade das nossas almas,
Sobre as listras horizontais da sua camiseta nova.
Sobre a ligação eterna entre eu e você.
Sobre um não, não te deixo ir.
Sobre o quanto eu sei
Que você sabe
E que nós sabemos
Que seremos, em menor ou maior parte,
Sempre pertencentes um ao outro.

Arrepios.

Gianluca di Valdo, 24, 25 e 26 de Outubro de 2015.

domingo, 8 de março de 2015

Vitrines



Os segredos contados atrás de árvores esguias, 
Onde pessoas pensam que se escondem, 
As palavras são grandes, apesar de sussurradas.
Nem precisam de vento, caminham sozinhas.
Se encontram sozinhas.
E no pérfido encontro de palavras ditas sem querer, 
Formam-se frases capazes de mudar alguns rumos, 
Ou simplesmente a duração da caída das folhas do velho bosque,
Ditam seu ritmo,
Ameaçam seu curso.
Pretendem mudar o rumo das estações,
Pouco modestas, 
Pouco seguras. 
Propensas e intensas.
As idas se tornam longas
E as primaveras indesejadas. 
Chegadas sem querer não tem sentido, 
Partidas sem dor não tem graça.
E no corre e corre ligeiro
De silhuetas tristes pelo bosque,
Na troca de esconderijos revelados, 
Correm junto a elas
As palavras de segredos.
Os mimos das vaidades, 
As dramáticas ansiedades.
As carências mais banais, 
Desejos menos e mais carnais. 
São cenários cinza claro,
Da cor do gelo, quase branco.
É a realidade que padece, 
A vitrine que se mostra, 
A beleza de uma imagem, 
E a crueldade para quem não pode fechar os olhos. 
É tudo frio, trivial, desejado, essencial.
É o velho contraste, 
Uma velha memória.
Um apelo tradicionalmente fracassado.
São segredos da culpa, 
São palavras toscas. Discursos crus. 
Patologias da fé. 
É cruel.
São segredos.
São verdades.
Cenários e vitrines.
São vaidades.
São carnais.
Existenciais.

Finais.
E cinzas, cinzas demais.


terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

o menino, a cama grande e o medo de nada

é sobre um menino
procurando lugar na cama grande dos pais.
puxando o lençol, arriscando sussurros,
enfrentando o medo do corredor escuro,
arrastado uma coberta velha, 
sentindo o taco, depois o piso frio,
o taco.
a mão da mãe levemente estendida pra fora,
num gesto involuntariamente delicado.
feminino. 
nem parece a guerreira que acorda com o sol.
toque de mãe. calor. transmissão de pensamentos.
partilha de emoções.
o coração do menino bate, bate, bate.
o pai respira fundo.
o pai está cansado.
e estende a mão.
o coloca entre seus corpos de adultos.
e o menino recupera os sentidos,
o pesadelo trazido do seu quarto.
partilhado com ursos de pelúcia que não o acompanharam,
não encontra o seu lugar. 
alí só cabem o menino, a mãe, o pai.
seus corações batendo forte,
suas emoções crescendo juntas,
seus sorrisos involuntários,
suas felicidades intrínsecas, 
suas ingenuidades sensatas, 
seus sonos que já vêm.
e seus sonhos sonhados juntos.

não tenha medo menino. de nada.