segunda-feira, 9 de abril de 2012

Madrugada



Queria poder controlar melhor alguma coisas, principalmente sentimentos. Não que não saiba fazê-lo, mas é que odeio me sentir fraco perante coisas que parecem mais fortes do que eu. E nem é mais um desses discursos clichês sobre o amor ou coisas afins (não apenas). Estou falando de quando se trata de ódio, de raiva, de tristeza, de felicidade. Queria ser mais contido quanto a isso. Queria que nunca ninguém entendesse o que se passa por dentro. Queria que fosse de fato tão pouco transparente quanto me cobro, mas sei que não sou assim. Alguns irão questionar, hesitar, dizer que sou um cara fechado, confuso, difícil. Eu protesto! Sou mais facilmente compreensível do que parece. Talvez esteja faltando a maneira certa de chegar até a mim, a melhor palavra, o melhor gesto. Talvez falte simplicidade, correspondência, paciência. Ou talvez eu sou confuso mesmo e tenha dificuldade em admiti-lo. Ou não, sei lá, ah, só sei que as vezes fico cansado de remoer tanta coisa e me deter diante de muitas outras. Tá vendo? Olha a contradição...ha pouco dizia que queria ser contido, agora reclamo da minha contenção e isso se torna mais um dos meus desabafos inúteis. Ok, vai lá, sou confuso. Sou hesitante, impaciente. Gosto das coisas do meu jeito. Orgulhoso, às vezes prepotente. Melhor escrever em forma de poesia...


Madrugada.
Temperatura amena.
Respiração cansada.
Lembrança estúpida.
Arrependimento.
Saudade.
Inconsistente como o vento.
Intangível como o sol.
Impossível como a paz.
Estagnado como a rocha.
Ameaçador como o tempo.
Metafórico como este momento
Em que tão pouco o espelho pode refletir
Tanto a se falar
Inexplicável verdade,
Questionável realidade.

Madrugada.
Chuva fina.
Batimento estável.
Vaidade estúpida.
Entristecimento.
Saudade.
Inatingível como a alma,
Insubstituível como a brisa;
Intrínseca como o mal,
Estampada como o céu;
Enlouquecedora como a vida;
Eufórica como este sentimento.
Em que tanto pode-se dizer,
Tanto a se fazer.
Inexplicável razão
Questionável emoção.

Madrugada.

Gianluca di Valdo, 10 de Abril de 2012

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Tela Estranha

Um dia pensei ter me perdido.
Atravessei a malha criada por linhas vermelhas e amarelas,
Me permiti quebrar a ordem, espalhar o azul.
Recolhi o verde, rearranjei da minha maneira.
Apaguei rabiscos duros de carvão. 
Espalhei um pouco de branco, um pouco de rosa. 
Um pouco de um vermelho venenoso.
Arranquei os espinhos de um fúcsia desbotado.
Deixei fluir as águas de um azul, até então sem graça e amarrado.
Esculpi num amarelo de solstício,
Rasguei marrons de folhas de um outono errado,
Rabisquei laranjas, desperdicei cinzas.
Abusei do preto, depois apaguei.
Depois usei, re-usei e apaguei de novo.
Então cobri tudo de anil,
Desenhei círculos magentas e imperfeitos.
Reestruturei. Reedifiquei. Recriei as regras,
De uma paleta de cores qualquer.
Estudei as proporções, as relações.
Amarelo com Lilás,
Vermelho da paixão, com o verde da relva primaveril.
Complementando, segurando.
Limitando.
Cansei.
Recriei.
Amarelo, Vermelho,
Paixão, Veneno.
Um girassol.
Um sol sem céu.
Um azul sem mar.
Uma vida sem o verde do pinheiro de natal.
Um amanhã sem o cinza do passado.
Um cavalo sem o branco da coragem.
Uma vida sem bravura, sem paisagem.
Espalho o laranja do mediterrâneo.
Escrevo com o verde da janela.
Com o cinza do futuro.
O preto do presente,
O vermelho do amanhã,
Às águas anis da eternidade...
E tudo é uma grande confusão,
Um mundo sem maré.
Uma maré sem humanidade,
Uma humanidade incompleta de.
vaidade.
Alma sem limite.
Paleta de cores.
Tela incompreensível.
Mistura de emoções, regras e sabores.
Reflexo da minha alma.
Sou eu, hoje.
tela cheia. 
Tela estranha. 
Amarrada, solta
Ou desbotada?

Gianluca di Valdo, 05 de Abril de 2012