quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Não sei mais se sei escrever, se sei passar por aqui e ultrapassar algumas 3 linhas salvas como rascunho. Às vezes é simplesmente difícil avançar, querer, mostrar. E tudo fica limitado a desabafos interrompidos, ou envergonhados, ou cansados, de mim, comigo mesmo. Vamos ver se hoje vai ser diferente. 

Não gostaria exatamente de dar pistas do momento que estou vivendo, pois, como sempre foi e sempre será, eu sei do que estou falando e é quase mágico quando, anos mais tarde, releio o que escrevi e me reconheço na época/espaço do qual escrevia. 

Roupa Suja

Naquele dia
Era um espaço grande e bagunçado. 
Pilhas e pilhas de livros escritos à mão, sobre presentes que já foram futuros. 
E futuros que seriam presentes e alguns ainda o serão. 
Uma sala branca, um sofá branco, um gato branco. 
Um lençol escuro, uma luz mal feita, uma falta de espaço num espaço grande. 
Nas paredes, pendurados, não havia nada. Apenas um quadro de mal gosto, 
Uma expressão de mal gosto. Um mal gosto. Um mal. Um gosto. 

Um amargo. Uma cama cheia. Uma pilha de roupas. Bem sujas.
Um sentimento esmagado, um coração esquisito, um ineditismo do ser. 
Um quadro apoiado, janelas abertas. Um olhar perdido.

Um cheiro de espaço, vazio, sem graça. Cheiro de rancor misturado com raiva. 
da raiva que é amor transformado. De ódio que é primo de um espaço vazio. 

Pilhas e Pilhas e Pilhas de roupas emPilhadas.A insistência nos mesmos espaços vazios cheios de sacolas de roupas, que chegam, que vão, que somam, que se empilham, Espaços sem quadros pendurados. 

Um rosto, alguns rostos, detalhes. Estilhaços dos espaços preenchidos por palavras de vidro. Milhões de cortes profundos disso tudo que se espalhou pelo chão e onde pisa-se descalços. O sangue bem vermelho escorrendo por causa de garrafas de vinho que eu não quebrei. As garrafas que preenchiam os espaços...vazios e empilhados de roupas. 

Me corto, me firo, firo também, me envolvo, me escapo, me esqueço, não me reconheço. 

Agrido, me firo, entristeço. 

Vou embora, retorno, vou embora de novo e retorno de novo. No espaço vazio preenchido do que não fui eu. 

Vou embora, não retorno, não preencho, não observo, não tento. Esqueço, recomeço. 

Me encontro sozinho, penduro alguns quadros, dobro roupas e não quebro garrafas. 
Preencho um espaço, compro uma planta, me olho no espelho.

Me reencontro, observo, retorno. 

Dono e arquiteto do meu próprio e único espaço, não deixo para ninguém,

a bagunça do meu quarto.