segunda-feira, 8 de julho de 2019

Não verbal

Entre tantas perguntas
Do ser questionador que sempre fui
A certeza de que nos seus olhos eu poderia dizer que sim
Me tornava o indivíduo mais frágil, e mais confortado.

Confiei que no abismo que existia por detrás do seu semblante, 
Eu encontraria a saída do maior labirinto que já vivi. 
E sabia que era certa a minha decisão.

Pois quando corpos se comunicam sem precisar da voz, 
Não há muito o que fazer.

O tempo se encarrega. 
Os julgamentos tropeçam. 
A inércia não é mais opção.
A dúvida dá lugar ao fato consumado. 

A seleção natural de me colocar do teu lado, 
por uma vida, 
um dia, 
meia hora, 

Se cumpre. 

Desafio do Direito ao Parêntesis

Nunca é tarde para se desafiar a escrever num espaço que é tão antigo, quanto importante. De uma época em que tínhamos mais tempo, ou éramos menos consumidos pelo trabalho, pelo stress, pela vida. Da época dos vinte e (bem) poucos, de outra década, outros sonhos, outros sorrisos, essências... mas também de tanta coisa que permaneceu exatamente no mesmo lugar provando que, apesar do que acontece lá fora, por dentro nunca nos tornamos exatamente muito diferentes do que sempre fomos. Deve existir uma alma. Uma coerência, um norte. Não sei. 

Mas com certeza sei que deve existir de vez em quando o direito a um parêntesis nessa vida estranha que nos permita parar para explicar algumas coisas. Que nos dê um respiro, uma chance de seguir, direto à saudade e ao toque de melancolia que nos faz bem. Senão a vida vira só esse atropelo de palavras, cheia de erros de digitação, discursos interrompidos pelo correr afobado de dias e dias e dias com muito sol e pouca chuva. Ar seco demais, regras, prazos. Não. Parêntesis. 

Sinto que eu e uma amiga nos desafiamos ao direito de um parêntesis. E que assim seja. 

De volta. 

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Barulho de rua, 
De vento que é vento, 
Do vento que é movimento de um carro que passou. 
Luzes, um pouco de Natal. Só um pouco. 
Tá frio. Embora não deveria. 
Vento de uma estação de metrô, 
Fuligem. Sujeira. Pessoas.
Corre, desce, sobe. 
Mantenha-se à direita. 
Mas prefiro a esquerda livre, 
É seco o barulho da porta do trem se fechando.
Caos. celulares, mochilas e sacolas. 
Silêncio. 
Alguém falando mal de um chefe.
Alguém rindo de um colega.
Ninguém chora.
Vento de chuva que vem.
Barulho de um temporal já esperado. 
Sem bateria. 
Subo uma escada.
Subo mais uma.
Atravesso uma esteira. 
Deixo a esquerda livre.
Percorro uma maré de rostos que também não sabem pra onde vão.
Mas fingem que sim.
Olho no olho.
Desvio.
Caráter.
Vaidade.
Melancolia. 
Assepsia. 

Saio.
É seco o ar da cidade. 
Movimento. Caos. Celulares. Bolas e sacolas.
Uma faixa de pedestres. 
Um sinal muito lento para o carro.
Um sinal muito rápido para mim.
O contraste do cinza com o cinza.
A delicadeza do concreto sobre o asfalto.
E pessoas que escorrem, rápidas quase como o vento.
O mesmo vento que é vento.
O vento que é o de um carro que passou.
Algumas luzes de Natal.
O bom dia e o boa noite.

Da cidade.