terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Boa noite

Quero desejar boa noite.

Mas não é assim, falar, por falar, por conveniência e ir, como o boa noite que você da ao porteiro, ao vizinho, à sua mãe, num processo infinito de ação e reação. Você já se perguntou quantas coisas deseja aos outros, sem de fato nem pensar no que estás a desejar? E até que ponto seria mal educado o silêncio...

Boa noite escravo.
O Sujo, cheirando à cana. 
Não a que bebeu, e sim à que cortou. 
Boa noite ao seu olhar fadigado, 
Ao seu traço cansado,
À sua pele áspera, 
Ao seu suor escondido.
Ao seu sorriso impossível.

Boa noite à mãe doente,
Ao filho perdido, 
Ao desafeto do destino.

Boa noite ao pai aidético,
Ao coquetel de piedade,
À tentativa frustrante de combate.
À felicidade escondida atrás da porta.

Boa noite ao homossexual,
Ao seu sorriso transviado,
Ao seu rosto de suposto pecado,
À sua súplica de perdão,
Á sua famosa vida de perdição.

Boa noite à prostituta
Ao seu cheiro de sexo 
Ao seu entender de puta,
Ao longínquo barco que perdeu.

Boa noite ao vagabundo escondido,
Ao seu intragável e esmagado,
Mundo de descuido.
À sua concepção indefinida de realidade,
À sua morte, à antecipação de suas batalhas.
À indagável esperança da sua força.

Boa noite ao moribundo,
À sua súplica de permanecer,
À sua vontade de talvez
Apenas ir
Deixar esse mundo amargurado,
Entendendo por si só,
Qual o verdadeiro significado do pecado.

Boa noite ao estúpido, ao cético,
Ao feio, ao imperfeito,
Ao budista, ao terrorista.
Ao cínico, ao solitário pianista.

Boa noite ao acaso.
ás rugas de um escravo.
Ao escravo sujo.
Ao escravo que fede.
Ao escravo negro, branco,
homossexual, 
À escrava prostituta,
Ao indefinível papel daquela tremenda
De uma filha da puta.
Boa noite ao escravo moribundo,
Ao seu suor de quem trabalha,
À sua tristeza, de quem batalha.

Boa noite a você,
A você que é o Escravo,
Que fede à cana.
À cana que plantou, 
E à cana que bebeu.
Pois Somos todos escravos do que plantamos,
Eternos exploradores do que não temos
E Eternos julgadores do que não possuímos.
E a vida se torna arrastada.
E é preciso dizer Boa noite,
Mas não é preciso mendigar.
É preciso merecer,
Interpretar,
Quebrar as correntes e dizer verdades,
respeitar o silêncio,
Esquecer vaidades.
Sem conformismos ou suposições.
Sem a maldita história de padrões...

Escravo, diga boa noite
Porque sente vontade.
Se não sentir, 
Continuo preferindo
A minha sincera, eterna e absoluta
Realidade.

Ou apenas arraste-se,
entorpecido pelo vago e impreciso orgulho de quem vive...
Ação e reação. 
Padrão.

Gianluca di Valdo, 10 de Janeiro de 2012

3 comentários:

  1. Qualquer "guenta ae" vale a pena pra ler algo tão difícil e forte emendado com a mensagem in box anterior. Adorei o de hoje! Muito!

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  2. Obrigado! Texto difícil, palavras pesadas...as vezes é preciso colocar pra fora todo o lixo que a vida te faz engolir...

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  3. Já tava chorando mesmo.. então não fez muito diferença ler ou não =/

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