Um dia me olhei no espelho e percebi que alguns traços tinham mudado. Talvez seja cedo pra falar em gravidade, talvez seja tarde pra falar em cansaço, stress, depressão, todos esses termos que ganharam força nos discursos sobre qualidade de vida no começo do novo milênio. Talvez eu devesse apenas me certificar de que o tempo passara sim, e continuaria passando, mas achei a ideia antiquada e romântica, tragicamente romântica. Então pensei que apenas mudara. Pensei que algumas ideias mudaram de direção, alguns pensamentos deixaram de existir, outros se esconderam, outros nunca estiveram tão presentes. Algumas maneiras de pensar eramo novas e vivazes. Algumas melancolias permaneceriam. Alguns brilhos brilhariam ainda mais, uns se apagariam. Alguns textos continuariam tendo concordância verbal e talvez até sentido lógico, racional. Outros não.
Quando me olhei no espelho e fitei meus olhos azuis daquele tom que sempre gostara tanto e me deparei com meu excessivo, senão cansativo narcisismo do momento, pensei ter me tornado fútil. Poderia ter me tornado escravo de jogos estúpidos de vaidades. Talvez teria começado a acreditar nas verdades que criaram pra mim mesmo. Naquele momento, naqueles olhos, me sentia fugaz. Me sentia vazio como o céu sem graça, sem sol e sem vento e sem cheiro e sem nada. Um céu sem estação. Pensei sobre a vida, o passado, talvez o destino. Pensei sobre o presente. Pensei sobre alegrias, sobre como observara as folhas caindo da velha árvore aquela manhã. Pensei na importância que teria dado a isso. Pensei em mudanças. Em julgamento de valores que mudaram tanto. Pensei em propostas sem sentido. Pensei em personalidades em conflito. Pensei que meus olhos perderam o tom. Pensei que o gastara perdido no profundo fervor da juventude.
Silêncio. Daqueles que você consegue ouvir detalhadamente o tique-taque do coração. Quase possível ouvir a pressão arterial a "ouvido nu".
Pensei então que isso tudo era uma grande bobagem. Pensei que meus olhos estavam eram vividos. Jovens, mas vividos. E que nem tudo era perfeito, muito menos para o bem. Pensei em quantas vezes eles tinham se arriscado buscando verdades em olhares alheios. Em quantas decepções, ilusões e em quantas vezes tiveram sorte. Pensei que muitas imagens tinham sido capturadas, na melhor qualidade, superior a qualquer 20 ou 30 megapixels. Pensei em paisagens e estradas afora, caminhadas em areias, nuvens sem formato. Pensei em quantos romances e notícias de internet foram lidos, em quantas mensagens de celular, em quantos papéis trocados em bancos de escola. Pensei em aventuras, em olhares de desejo. Pensei em inocências e em malícias. Pensei em desenhos que desenhei, em paredes que pintei e em olhares que guardei.
Mais um momento de silêncio. Dessa vez só me distraia o barulho de uma torneira mal fechada. Pensei. Pensei de novo. Me olhei no espelho.
E vi que meus olhos continham tudo o que já tinha vivido. E que eles eram extremamente bonitos, naquele momento, narcisticamente falando ou não. Eram azuis, do melhor tom. Aquele era o melhor tom. O tom dos sonhos, dos desejos que se realizavam, das histórias que agora era capaz de contar, Do bem e do mal, do céu e do inferno, do amor e do ódio.
Fiquei contei e pensei então que eu poderia fechá-los por um pouco, dormir, e deixar que no dia seguinte capturassem mais um pouco do que o mundo poderia me mostrar.
Gianluca di Valdo, 21 de Junho de 2012

Momento azul mais que perfeito.
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