E hoje o discurso é pessoal...
Existe a mesma confusão aqui dentro.
A que me acompanha desde sempre,
A que não me deixa dormir tranquilo.
A que traz inverno às folhas verdes de uma árvore jovem,
A que balança os seus galhos,
Enfraquece suas raízes,
E se torna crucial para a sobrevivência.
E me lembro de quando não passava de um menino, deitado no piso frio da cozinha da casa antiga. Mês de Junho ou Julho, talvez Agosto, verão intenso na pequena cidade de Valdo. E o sol intenso acariciando meu rosto, primeiro devagar e depois tanto, tanto, até quase queimar, e eu, menino, ficava alí, parado, pensando, até que minha barriga começasse a dor de tanto...sol, me avisando que já era hora de entrar.
Então eu corria no mesmo chão frio (que nunca deixava de ser) e me perdia em tardes de brincadeiras de um menino sozinho. Desenhar, construir com as velhas peças de um Lego, preparar uma surpresa para a mãe que chegaria mais tarde...me envolvia dentro das possibilidades que criava a mim mesmo. E eu me bastava.
Mas também me lembro das tardes em que corria para a rua. E brincava com a Elisa, o Denis...meus amigos. Ora eu era o goleiro do time de futebol improvisado, ora eu era um aventureiro de ruas ainda inexploradas.
Esconderijos já manjados do bom e velho pique esconde que voltam a ser usados, a igreja das velhinhas bondosas que escondiam em casa pedaços de bolos gostosos. Boas risadas, até a noite cair, o suor em nossos rostos, camisetas sujas de infância.
E nesses momentos eu não trocava nada daquilo pelo meu ser "só". A rua me bastava, os amigos, as brincadeiras e as promessas de futuro.
E eu não me questionava de verdade sobre esse conceito tão "adulto". Futuro? Apenas o que aconteceria a partir de amanhã, depois, quem sabe. Questões "psicológicas" então seriam um tanto quanto precoces se indagadas por uma criança de 9 ou 10 anos, correto?

Mas hoje percebo que um ser se construiu. Calvado nessa dualidade de pensamento, entre a necessidade de estar só e querer estar assim e, ao mesmo tempo, precisar desfrutar daquilo que é alheio. Àquilo que o mundo está me oferecendo...E então, caio na crise do que acontece hoje, dentro dessa árvore de galhos frágeis...
E hoje (adulto) indago: existiria em mim uma busca incessante pelo que não tenho? estaria atando-me as não possibilidades do que é, de fato, possível? Acho que estou irremediavelmente doente. Doente da essência do que sou, doente do que quero e do que penso, do que sinto, almejo, insisto. Me pergunto se seria a minha vida apenas a passagem vazia de dias e dias que se repetirão até a exaustão quando, cansado demais do "repetir-se" meu corpo vai se abandonar e deixar ir essa alma tola que anseia tanto por se libertar de tudo e de todos, inclusive de si mesmo?
Anulei minha existência aos poucos, diminui contatos, distanciei relações, pessoas. Pra não falar de amores. Criei uma resistência às minhas paixões instantâneas e, oras, me tornei mais infeliz. O que achei que seria momentaneamente superficial se tornou eternamente fútil e vazio. Meus dias estão repletos de ares capitalistas, aspirações insossas, integridades corrompidas, sentimentos traidos. Me calo sempre que sou tido como o errado e deixo embora, por medo de não ter a tão tola liberdade que necessito.
Mas, seria a tal liberdade tão tola assim?
Eis então que penso ter encontrado a resposta, do que é, que me aflige. Seria apenas esse conflito entre minha vontade de voar e minha necessidade de parar, ter e...amar? É o mesmo conflito daquele menino que deitava para se esquentar no sol e depois corria para as brincadeiras da velha rua?
Mas eu não sou de ninguém e, ao mesmo tempo, preciso tanto do carinho de alguém. Preciso de duas mãos a mais, cabelos a mais, uma boca a mais, dois olhos sinceros a mais, um perfume diferente a mais. E preciso das asas leves da liberdade, de sentir o vento sozinho, de falar comigo mesmo, de me interpretar, me reinventar, me surpreender, me amar.
Preciso alçar vôo, decolar. Preciso pousar, parar.
Como?
Preciso encontrar a solução...
...mas eu ainda acho que apenas descobri o preço por tentar ser o que sou.
E a árvore tem a opção,
de resistir ou de ceder.
Sofrer e seguir ou apenas...
Morrer.
Demorei, mas enfim consegui escrever (quase) tudo o que queria. Mais leve.
Gianluca Di Valdo, 26 de Julho de 2011
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